Estou em um dia pouco ranzinza, então posto aqui um conto rrrrrrromântico da minha própria “autonomia” escrito há alguns poucos anos atrás.
“Quando chego na praça Cairú e olho pra cima o que é que vê ? Vê o Elevador Lacerda que vive a subir e a descer …”
A Baía de Todos os Santos é realmente linda. Do alto da Ladeira da Montanha vê-se, de um lado a probreza dos casebres, botecos e prostíbulos e, do outro a beleza da Baía ou as lindas construções antigas da Igreja da Conceição da Praia. Em constantes e rotineiras andanças por esta região, a princípio por mim tão repudiadas, lentamente surgem detalhes interessantes sobre a vida, cultura e hábitos dessa parte da cidade.
O alegre vendedor de doces (incluindo um delicioso doce de banana na palha, rapadura, bolachinhas de goma …) que afirma: “O doce é novo, de velho aqui só eu !”. A falsa cigana que colocou duas pedrinhas vermelhas na minha mão e pediu para eu guardar no bolso. Fiquei 2 dias procurando as pedrinhas para jogar fora (e junto com elas o mal olhado) e não consegui encontrar. Apareceram misteriosamente depois, com uma cor diferente. As lojas que vendem de tudo, desde papelarias, lojas de vinil, artigos de pesca e outras especializadas em artigos de carnaval.
A Praça Cairú é um dos lugares mais quentes do universo. Diariamente, saia do comércio pra pegar meu filho em Itapoã. Isso mesmo, Itapoã (que merece um outro pequeno conto como esse). No retorno, após um almoço apressado e um concurso apertado para encontrar uma vaga na Conceição da Praia, caminho até a Rua Visconde do Rosário, bem perto do Mercado Modelo. Parece um deserto, não dá pra viver assim. Tento desesperadamente, encontrar algum lenitivo para este infortúnio quando, logo em frente ao Mercado Modelo, uma barraquinha de sorvete.
Uma barraquinha moderna, no estilo banca de revista e com uma placa onde lê-se: “Sorvetes, FEITO COM ÁGUA MINERAL !”. Por 90 centavos de real voce poderia sair de lá com primorosos minutos de frescor e sabor. ARRISQUEI ! Graviola, acho que foi meu primeiro sabor. Não tem como fazer um sorvete ruim de graviola, pensei ! Muito bom, delicioso para a agressão do sol a pino das 14h. Estava tão encalorado, saí e nem disse obrigado.
Numa segunda viagem, pude atentar mais demoradamente aquela paragem. O sorvete era servido por uma mulher. Aparentava ter entre 26 e 28 anos, branca, cabelos claros, estatura e peso medianos, sotaque diferente que, aliado à aparência, denotava origens sulistas talvez. Pedi um de ameixa, meu preferido e fiquei a observar aquela mulher colocando o sorvete no copinho de plástico. Passei a gozar de frequentes paradas, ainda incertas se pelo sabor e frescor do sorvete ou se pela súbita beleza e gentileza da atendente. Fiquei a elocubrar a vida daquela mulher. Porque alguem migraria do sul do país para a região nordeste, para montar um negócio de vendas de sorvete ? Será que ela é feliz ? Ou será que tem um namorado ? Após algumas visitas, em que eu maravilhara-me com o enrolar das bolas de sorvete e com o vislumbrar de tão delicada feição, encontro um homem no interior da barraquinha.
É seu marido, pensei. Um homem de igual semelhança, branco, cabelos sarará e olhos azuis como uma turmalina. Olhar fixo no além e não parecia expressar nenhum sentimento. Neste dia, talvez por me sentir cliente cativo (ou por um nervosismo não tão aparente) ela deixa transbordar o sorvete além do permitido pelo copinho. “Não se preocupe”, eu falei e fiquei a pensar se seria ralhada pelo ato impróprio para um comércio. Nesses dias, fiquei a lembrar da feição do homem, parecia infeliz, enquanto ela não parecia infeliz, mas também não parecia feliz.
Lembrei do Nelson Rodrigues, talvez por uma súbita vontade de um ato adúltero e pelos pensamentos de uma possível correspondência por parte dela. Pensei em um dia qualquer perguntar: “Seu marido deve se sentir agradecido por ter um sorvete desses todos os dias em casa, não é ?” para tentar extrair ilusões da resposta obtida. Nunca tive coragem. Afinal qual homem não seria feliz com uma mulher bonita e um sorvete delicioso em casa ? Qualquer um, pensava. A placa “FEITO COM ÁGUA MINERAL” foi retirada. Será que não é mais ? Fiquei a fantasiar meios para uma conversa mais duradoura, talvez um pedido de sorvete por encomenda.
Certo dia, num transbordar da agonia de um dilema mal resolvido e num súbito de coragem reservada, perguntei: “É voce mesma quem faz o sorvete ?”. Certo da resposta positiva, ela respondeu: “Não, é uma empresa chamada BahiaSoft”.
Neste momento, desapaixonei-me.